Bike fit: Técnica que deixa a bicicleta sob medida para você.

8 de outubro de 2019

Bike fit uma técnica que começou a ser difundida no Brasil no início desta década e consiste em ajustar a bicicleta para o ciclista, considerando suas medidas, capacidades e demandas. Afinal, quem nunca teve desconforto ao pedalar, mesmo ajustando o selim? Ou ainda, no caso de quem compete, já achou que poderia render melhor em uma determinada prova, não fosse uma dor na lombar ou dormência no pé? Esses incômodos podem ser bem comuns mesmo ao comprar a bicicleta certa para o tipo de uso ou modalidade e no tamanho certo. No entanto, tudo isso pode ser evitado com o bike fit, que vale para todos os tipos de bicicletas, da mountain bike à urbana comum. Não pense que esse é um serviço indicado apenas para atletas profissionais ou amadores. Há benefícios também para ciclistas que usam a bicicleta para lazer ou como meio de locomoção nas cidades.

Benefícios

  • Melhora de desempenho;
  • Mais conforto ao pedalar;
  • Redução de dores e lesões resultantes da pedalada.

O profissional de bike fit Gustavo Vieira, que tem certificação nível quatro no Instituto Internacional de Bike Fitting, explica que o serviço é indicado para todos os tipos de ciclista, desde aqueles recreacionais até atletas profissionais. Fisioterapeuta, ele comenta que a ideia é que a pessoa consiga utilizar o máximo do equipamento e do seu corpo, sem sofrer com sintomas comuns a uma pedalada incorreta.

– O bike fit é indicado para qualquer ciclista que tenha objetivos de melhorar conforto e rendimento e diminuir os riscos de lesões e dores. O ajuste é totalmente personalizado, considerando uma avaliação física da pessoa e a padronização de ajuste de cada tipo de bike. Por exemplo, as alturas do tronco do ciclista em uma mountain bike e em uma bicicleta de estrada são diferentes – explica Vieira.

Profissional de bike fit e educador físico, Rubens Lino enfatiza que o serviço é altamente indicado para quem usa a bicicleta para se locomover em cidades. Esses ciclistas não estão livres de dores e lesões e precisam se posicionar adequadamente para evitá-las.

– É preciso fazer o bike fit para deixar a bicicleta certinha. Pode não parecer, mas um ajuste de um centímetro na distância entre o selim e o guidão faz muita diferença. Hoje, as pessoas usam mais a bicicleta para se locomover por longas distâncias, até mais de 10 km. Se a posição não estiver certa, podem ter uma lesão – completa Lino, que tem especialização em Biomecânica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Com o apoio desses profissionais, preparamos as explicações sobre quando e como deve feito o bike fit e como essa técnica pode ajudar na sua pedalada. Confira!

Atletas também podem recorrer ao bike fit para deixar a bicicleta mais agressiva — Foto: Unsplash

Atletas também podem recorrer ao bike fit para deixar a bicicleta mais agressiva — Foto: Unsplash

Para quem é indicado

O bike fit deve ser realizado por quem usa a bike para locomoção, mountain bikers, ciclistas de estrada e triatletas, independentemente do seu nível. O serviço não é comum entre quem usa a bicicleta para prática de esportes como BMX e downhill. Mas como nesses casos o atleta quase não usa o selim, que é uma referência no bike fit, o processo não é tão primordial como em outros casos.

Quando fazer

A recomendação é sempre realizar o bike fit antes da compra da bicicleta. Assim, o ciclista terá todas as medidas certas, como o tamanho do quadro e do selim, e sugestão dos modelos mais indicados. Nesses casos, após a compra, o ciclista precisa levar a bicicleta para o profissional fazer ajustes pontuais. Não é porque a bike é nova que não serão necessárias regulagens. No entanto, esse processo será mais simples do que em uma bike já usada que foi comprada sem um bike fit prévio.

Essa técnica foi desenvolvida inclusive para orientar a compra. Mas isso não significa que a bicicleta precisa ser nova. É possível realizar os ajustes em modelos já usados que estejam funcionando bem. Na maioria das vezes, na verdade, o bike fit é realizado nesses casos. Quando a bicicleta é usada, o profissional avaliará e indicará se as alterações podem ser realizadas ou se deve-se comprar uma nova.

Onde encontrar o serviço

Atualmente, bike shops oferecem esse tipo de serviço. Mas também é possível encontrar estúdios especializados em bike fit e assessorias esportivas que realizam esse trabalho. Para fazer a escolha de onde realizar esse procedimento, busque um profissional que tenha formação em Fisioterapia ou Educação Física. Há oficinas mecânicas que oferecem o bike fit. Contudo, é importante que o profissional tenha conhecimento de anatomia e biomecânica. Caso contrário, pode não ser possível alcançar os objetivos pretendidos ou até aumentar os problemas na pedalada.

Para que se tenha ideia, é muito comum que ciclistas procurem o bike fit por dores na lombar. Em uma bicicleta usada para passeio, por exemplo, se o tronco fica muito ereto, a pessoa pode sofrer com esse problema. No entanto, um pequeno ajuste na curvatura para frente pode tirar a pressão da lombar. Por isso, é importante que o profissional tenha conhecimento de anatomia para conseguir fazer os ajustes na medida exata, corrigir problemas e não prejudicar ainda mais o ciclista.

Componentes que podem ser ajustados

Sapatilha deve encaixar adequadamente no pedal para evitar lesões na sola do pé e dormência nos dedos — Foto: Unsplash

Sapatilha deve encaixar adequadamente no pedal para evitar lesões na sola do pé e dormência nos dedos — Foto: Unsplash

  • Taco  O pedal tem que ficar entre o metatarso do dedão e o dedinho do pé. Caso contrário, o ciclista pode perder o giro, sentir dormência na ponta dos dedos e até lesionar a sola do pé. Por isso, é realizado o ajuste no taco para melhor encaixe da sapatilha.

O selim deve estar perfeitamente ajustado para evitar lesões na lombar e membros inferiores — Foto: Unsplash

O selim deve estar perfeitamente ajustado para evitar lesões na lombar e membros inferiores — Foto: Unsplash

  • Selim – No caso desse item, além de avaliar se o tamanho é adequado para o ciclista, podem ser ajustados altura, recuo e nivelamento. O ísquio, osso da parte inferior da região pélvica, deve ficar bem encaixado em cima desse assento. Assim, é possível evitar que a região pélvica se movimente e provoque dores na lombar ou afete o nervo ciático. A altura do selim também é um ponto importante para evitar lesões, e não apenas no joelho. Caso o banco esteja muito alto, pode comprometer a lombar. Já se estiver muito baixo, há um emprego maior da força na musculatura da coxa, sem trabalhar adequadamente a panturrilha. Isso pode causar ainda perda de performance, uma vez que a biomecânica do movimento fica falha.

A distância entre o guidão e o selim é um dos pontos corrigidos durante o serviço, que deve ser oferecido por profissionais capacitados — Foto: Unsplash

A distância entre o guidão e o selim é um dos pontos corrigidos durante o serviço, que deve ser oferecido por profissionais capacitados — Foto: Unsplash

  • Guidão – O bike fit permite regular a altura e o alcance desse componente, que pode ficar mais para frente ou para trás. Além disso, o guidão deve ter um tamanho ideal para a largura do ombro do ciclista. Se for muito maior, pode causar dormência nas mãos, enquanto o mais estreito prejudica a condução da bike.

Manetes de freio podem ser ajustados para um maior conforto do ciclista — Foto: Unsplash

Manetes de freio podem ser ajustados para um maior conforto do ciclista — Foto: Unsplash

  • Manetes de freio e trocador de marcha – Também é possível posicionar esses componentes de forma que o ciclista possa utilizá-los da melhor maneira.

Tipos de bike fit

Existem diversos meios de realizar esse procedimento. Atualmente, são mais utilizadas as metodologias mais modernas, conhecidas como dinâmicas. Porém, o bike fit pode ser realizado conforme os seguintes métodos:

  1. Checagem das medidas corporais do ciclista, como estatura e comprimento das pernas. Utilizando fórmulas matemáticas são realizados os ajustes para o melhor posicionamento do ciclista;
  2. Análise visual da pedalada. Nesse método, o profissional utiliza parâmetros técnicos para observar a pedalada;
  3. Estático. Com o ciclista parado em cima da bike, o profissional faz as medições necessárias para definir como serão os ajustes;
  4. Dinâmico, que pode ser classificado das seguintes formas:

  • 2D: com uma câmera, que pode ser posicionada na lateral ou na frente da bicicleta, são realizadas filmagens. Nesse processo, o profissional realiza marcações de pontos importantes no corpo do ciclista. Com o uso de um software específico, as imagens são estudadas e o sistema indica os ângulos e medidas ideais dos componentes da bike.
  • 3D: Contando com sensores aplicados pelo corpo do ciclista ou câmeras específicas, esse é o método mais rápido. O sistema identifica os dados das pedaladas na bike estacionária, semelhante a um modelo de spinning, dando a exata noção das medidas da pessoa e de como ela se posiciona sobre a bike e realiza os movimentos.

Ainda que os métodos dinâmicos sejam os mais utilizados, em alguns casos, os tradicionais podem ser indicados. Se a bicicleta não for do tamanho do ciclista, por exemplo, o profissional pode optar pelo método que envolve a medição da pessoa para definição dos ângulos e configurações.

Passo a passo

O ciclista faz o agendamento com o profissional. Se a ideia é fazer o bike fit de uma bicicleta já usada, é preciso levá-la no dia marcado. Ao final da sessão, a pessoa já sairá com o equipamento ajustado. Porém, se o bike fit acontecer antes da compra, o ciclista deve retornar com a bicicleta nova para realizar os ajustes necessários.

As etapas podem variar de acordo com o tipo de técnica usada pelo profissional e seu método de trabalho. Mas, de uma forma geral, o bike fit é feito conforme o seguinte processo:

  1. Anamnese e avaliação física do ciclista. Essa etapa é realizada antes de subir na bicicleta. O processo da anamnese é semelhante àquele quando a pessoa, após ingressar na academia, responde a uma série de perguntas do profissional de Educação Física. São feitas questões sobre histórico de lesões, dores e objetivos. Além de corrigir problemas, ciclistas amadores ou profissionais podem optar por deixar a bike mais agressiva para competições. Durante a avaliação física, são verificados tipos de pisada, força, flexibilidade e postura, por exemplo. O profissional também pode realizar medições do ciclista, dependendo do método utilizado ou seu processo de trabalho. Essa avaliação física auxiliará na análise da pedalada e nos ajustes da bike, bem como na etapa final, quando são feitas explicações para o ciclista melhorar a qualidade do seu pedal;
  1. Avaliação dos dados e ajuste dos tacos na sapatilha;
  2. Análise da pedalada, geralmente dinâmica por meio dos métodos 2D e 3D. Nesse processo, são detectados os tipos de ajustes a serem feitos;
  3. Realização dos ajustes. Isso no caso de o bike fit ser feito em uma bicicleta já usada. Quando é nova, os ajustes serão realizados quando o ciclista retornar com a bike indicada pelo profissional já comprada;
  4. Medição geral da bike e documentação dos dados. Trata-se de uma espécie de backup da montagem final da bike. Quem realiza o bike fit antes da compra deverá levar esse documento para a loja em que for adquirir a bike. Além das medidas, nesse caso, o documento indica também quais os modelos recomendados para o ciclista. Uma vez que tenha adquirido a bicicleta, deve agendar uma nova vista para o profissional de bike fit efetuar os ajustes necessários;
  5. Orientação do ciclista sobre a parte física. O objetivo é informá-lo sobre como pode usufruir melhor da bicicleta e melhorar os pontos que foram detectados na avaliação física, como flexibilidade das pernas e força do tronco;
  6. Retorno para verificação. Nesse caso, o prazo varia de acordo com a forma de trabalho e recomendação do profissional. De uma forma geral, o objetivo é confirmar se, após pedalar na bike pelo período combinado, os objetivos do ciclista foram alcançados.

Recomendações dos profissionais

  • Periodização: alguns profissionais recomendam a realização de avaliações periódicas, como se faz em uma academia, para revalidar parâmetros de treinamento. No caso do bike fit, esse cuidado ajuda a entender as mudanças de posicionamento, força e técnica de pedalada. Com o passar do tempo, pode ser necessário adequar o ajuste, uma vez que o ciclista pode melhorar no pedal ou mesmo apresentar necessidades novas. Sem contar que sempre há o risco de uma dupla causalidade de sintomas, como dores no joelho. O que o ciclista faz na academia ou se ele corre pode provocar sobrecargas. A ideia da periodização, portanto, é avaliar todo o cenário e sustentar os benefícios de performance, conforto e prevenção de dores e lesões.
  • Respeito aos limites: não é porque a bike foi ajustada que dá para abusar. Mesmo que a bicicleta tenha sido configurada para o ciclista, se ele não tiver esse cuidado, pode sofrer com dores na cervical, no joelho, no músculo gastrocnêmio e no quadril.
  • Alongamentos: quem usa a bike para locomoção por grandes distâncias, mesmo que tenha feito o bike fit, vale fazer uma pausa ao longo do caminho para alongar-se e evitar ficar muito tempo na mesma posição. Caso contrário, a atividade não será prazerosa ou saudável, uma vez que poderá causar dores e até lesões. A sugestão é que ciclistas mais iniciantes façam essa parada a cada dois ou três quilômetros, em média. Já pessoas mais experientes, podem fazer essa pausa a cada quatro ou cinco quilômetros, aproximadamente.
Com o apoio do bike fit, mesmo ciclistas experientes podem melhor muito o seu pedal — Foto: Unsplash

Com o apoio do bike fit, mesmo ciclistas experientes podem melhor muito o seu pedal — Foto: Unsplash

Investimento

Qualquer ciclista urbano, de estrada, mountain biker ou triatleta se interessa em melhorar seu posicionamento, conforto e performance. Por isso, Vieira faz um reforço sobre a importância de se investir nesse serviço.

– Com o bike fit, é possível aumentar a expectativa de uso saudável da bicicleta, sem se lesionar. Usando o banco na altura errada, por exemplo, é possível desenvolver uma lesão no joelho que pode inviabilizar a prática momentânea ou definitivamente – comenta.

Lino acrescenta que o alerta vale até para ciclistas experientes, com muita prática. Não é por ter muita experiência com o pedal ou a musculatura fortalecida que não se está sujeito a lesões ou quedas na performance.

– Nesses casos, pode haver um estresse e o ciclista se lesionar. O ciclista também pode ter uma perda de performance porque o giro não está ideal. Podemos realizar ajustes que vão melhorar de 60 a 70% o pedal. Com o bike fit, conseguimos eliminar o que é prejudicial para o ciclista – conclui.

Fonte: EU Atleta